PDA

Ver Versão Completa : 1 - Série: Economia, Política e Battlefield por Piracicaba



Piracicaba
19/02/2007, 11:30
Intervencionismo, Liberalismo e Política de Estado

I - Política de Estado

Muitas vezes escutamos críticas aos governos que nos parecem muito pertinentes a princípio mas que não traduzem-se em verdades quando comparamos com o que acontece com outros países desenvolvidos. Em algumas situações, ao contrário, vemos interesses puramente ideológico dominar um debate importante para o país, mas as conseqüencias futuras desse não sendo também mensuradas.

Pretendo lançar aqui uma conceitualização básica de duas ideologias que permeiam a Política e a Economia e uma terceira, que está acima dessas duas, mas exige um esforço maior por parte da Elite dominante de um país.

Acredito que para explanar esses pontos seria interessante voltarmos ao Brasil do século XIX, precisamente a um homem, Visconde de Mauá e ver a luta entre ele e os setores dominantes no Brasil.

Nesse tempo, posterior a BF Pirates e anterior a BF 1918, a ciência Economia Política, seu primeiro nome, estava nascendo. Nesses primórdios da Economia, o pensamento dominante e irradiado a partir da Inglaterra era o Liberalismo Econômico. Esse sistema econômico era um contraponto ao sistema Mercantilista que pregava um sistema totalmente intervencionista no qual os países deveriam vender mais do que comprarem de outros países e que as Manufaturas e o Comércio de cada um deles deveria ser priorizado em detrimento a uma liberdade de negociação de produtos com outros países. Esse sistema foi amplamente aplicado no Brasil moderno com uma nomeclatura diferenciada, Sistema de Substituição de Importações. Para quem é mais velho e gosta de informática deve lembrar-se da época da Lei de Informática no Brasil.

Como a Inglaterra, primeiramente, França, EUA e Japão, secundáriamente haviam-se industrializado através da I Revolução Industrial ou "Revolução do Vapor", haviam necessidade enorme de ampliação de mercados e o Sistema Mercantilista não respondia a demanda desses países. Desse período, iniciado em Adam Smith, nasce a Economia-Política. A corrente de pensamento dos primeiros economistas, todos eles nascidos nos países acima citados, era pregar que o Mercantilismo não levaria ninguém a desenvolver-se e que somente o livre comércio mundial poderia levar a uma benesse mundial. David Ricardo, que apareceu no cenário econômico +/- 50 anos após Adam Smith, aperfeiçoou esse pensamento e pregava que não adiantava países como o Brasil industrializar-se poque essa não era a nossa vocação. Se países como Portugal e Brasil especializassem-se em Vinho e Café alcançariam o mesmo nível de desenvolvimento econômico da Inglaterra, isso porque eles seriam imbatíveis nesses mercados. Outro pensamento aperfeiçoado por Ricardo foi que os governos não deveriam intervir nos mercados. Os mercados são regulatórios por si só e toda e qualquer intervenção governamental gera desestabilização no sistema econômico e esse prejudica a balança natural que faria com que países como Portugal e Brasil desenvolvessem-se.

Dentro desse pensamento a Inglaterra pressionou Portugal e posteriormente o Brasil a abrirem seus mercados e no caso do Brasil, os nossos portos. Exigiu também que a escravatura fosse abolida, mas nesse item específico a Elite Agrária brasileira não estava preparada ainda. Um sistema por fases foi instituido, abolindo o tráfico primeiramente entre as colônias da Coroa e após isso, dando liberdade aos nascidos aqui, aqueles que completassem 60 anos e até finalmente a abolição total em 1888. Como o Brasil dessa época era um país agrário, a Inglaterra tinha vultosos interesses na América do Sul, o pensamento de Ricardo fazia eco no Palácio Imperial Brasileiro. Contrapunha-se a esse pensamento um homem, Visconde de Mauá, menino pobre e com grande talento e que aprendeu muito com um magnata inglês: aprendeu a língua, operar mercados financeiros, conheceu a Inglaterra e conheceu profundamente o sistema e a história inglesa. Ele sabia perfeitamente que não era verdade, não era fatídica a teoria de Ricardo e que o Brasil poderia, sim, ser uma potência industrial mundial.

Mauá trouxe a indústria a vapor, criou as primeiras ferrovias no Brasil, trouxe o telégrafo e tinha empreendimentos no Uruguai e Argentina. Defendia que Brasil e Argentina devessem utilizar a mesma bitola em ferrovias para ganharmos mutuamente rapidez na logística e a integração de nossos mercados. Foi o fundador do Banco do Brasil pois entendia que não há industrialização sem capital financeiro.

Infelizmente, para o Brasil, o Imperador tomou partido dos cafeicultores e de Ricardo e o Brasil ainda demorou mais meio século para começar a industrialização de uma maneira enfática.

Essa não é uma visão imediatista do país, Mauá enxergava 150 anos a frente do seu tempo. Outro ponto interessante é que em todo esse tempo a agenda política pouco mudou. Desde 1990 é que o Brasil está procurando uma maior integração com os vizinhos, problemas logísticos ainda são crônicos e por aí vai. Mauá tinha uma visão de Estado e uma política de Estado. Esse tipo de política não é de alcance imediato, mas sim de décadas. Um exemplo notório é o da Coréia do Sul. País mais atrasado que o Brasil em 1960 e potência mundial hoje. Em 1960 a Coréia adotou um plano de elevar o nível educacional do país e de integrar a indústria as universidades, inclusive fisicamente. Hoje a Coréia é uma potência técnológica e o Brasil tem que vender muita soja e alcóol para pagar os Royalties e as remessas de Lucros da LG, Samsung, Hyundai, etc... O problema não é pagar os royalties ou a distribuição de lucros, eles investiram no Brasil e quem investe quer retorno, certo?

O que o Brasil tem que parar é de pensar em políticas do PT ou políticas do PSDB/PFL ou outras. Temos que ter uma Política de Estado que dê as diretrizes para onde o governo, seja de qual partido for, seja de que ideologia for, siga. Claro que haverá diferenãs, sutis, mais haverá. O que não podemos, enquanto povo, é achar que daqui a 150 anos, Mauá, ainda seria uma figura a frente do nosso tempo.

Discuti aqui o conceito básico de Política de Estado e como Brasil não consegue implementar uma há mais de 150 anos. Mostrei também o exemplo da Coréia e a Política de Estado altamente intervencionista da Inglaterra. Nos próximos tópicos estarei mostrando os exemplos dos EUA, Japão e China. Mostrarei também o básico do que é Ideologia de Direita, Ideologia de Esquerda e a Terceira Via.

Espero que vocês já consigam ter uma melhor noção de quanto não é verdade quando vemos políticos falarem da vocação do Brasil para Agrobusiness ou da vocação do Brasil para aquilo outro lá e etc.... O Brasil tem terras, tem clima, tem pessoas, tem recursos naturais e potencial de mercado para tornar-se uma potência tecnológica mundial.

Até a próxima,

Piracicaba

Piracicaba é Supervisor de Planejamento Financeiro e Controles Internos, formado em Economia pela UNIMEP e possui MBA em Gestão Financeira e Controladoria pela FGV. É jogador de Forgotten Hope, Desert Combat, Project Reality e BF2142. Faz um bico também em Red Orchestra, BF1942, BF Pirates e BF2. Tem 2 filhos, sendo um deles jogador de Deset Combat e BF2142. Faz parte dos clãs NoD (FH, PRMM, BF1942 e BF2) e GeD (DC). Joga somente para diversão e fazer novas amizades.