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Quando o maior derramamento de sangue da histria foi timo para a menstruao

Cardoso 14/08/2017

Menstruao um processo natural, mas no tem nada de bonito. o corpo dizendo p, sacanagem, me preparei todo pra uma gravidez e voc me sacaneou. Agora aguenta!. A culpa de nossa biologia complicada, e somente alguns primatas e morcegos menstruam (piadas por sua conta). Ah sim, e este bicho aqui:

O tema sempre foi tabu, mesmo hoje causa extremo desconforto e poucas coisas traumatizam mais um garoto do que a me pedir para ele ir buscar um Modess no mercado. Temos averso natural a sangue, ele um contaminante biolgico E atra predadores. Instintivamente associamos sangramento a algo errado muito antes de evoluirmos o suficiente para menstruarmos.
Mais ainda: Menstruao no normal.
O estado natural das fmeas da espcie humana estar grvida. A Natureza no est preocupada com estabilidade financeira ou se o momento para a fmea investir na carreira. Ns humanos que inventamos essas coisas e mexemos no ciclo natural. Sem nossa tecnologia para garantir alimentos abundantes, abrigo contra predadores e uma baixssima mortalidade infantil, uma espcie com a taxa de reproduo de uma humana urbana moderna seria basicamente um panda.
Temos poucas crias por fornada e a gestao muito longa. Sem tecnologia a nica forma de manter a espcie parir sem parar. Claro, quando nos tornamos racionais as mulheres mudaram isso, inventando mil meios de no engravidar, o que tornou a menstruao algo bem mais cotidiano, para horror de todo mundo que no menstrua.
Essas mudanas acabaram criando um tabu imenso. Srio mesmo. Que o diga
Levtico 15:19
Quando uma mulher tiver sua menstruao, ficar impura pelo perodo de sete dias. Quem tocar nela durante esse tempo ser igualmente considerado impuro at o pr do sol.
E nem pense no velho ditado se o sinal estiver vermelho, pegue a estrada de barro
Levtico 20:18
O homem que se deitar com uma mulher durante as regras e descobrir sua nudez, pe a descoberto a fonte do seu sangue, e ela mesma descobriu a fonte do seu sangue; sero ambos exterminados do meio do meu povo.
E aproveitando, uma misoginiazinha bsica:
Levtico 12:2 e 12:15
Quando uma mulher der luz um menino ser impura durante sete dias, como nos dias de sua menstruao.
Se ela der luz uma menina, ser impura durante duas semanas, como nos dias de sua menstruao, e ficar sessenta e seis dias no sangue de sua purificao.
Esse horror todo no exclusividade do cristianismo. Todas as sociedades e religies tm tabus contra menstruao, e se voc acha que os exageros so coisas de sociedades primitivas, aviso que o Nepal passou uma Lei em 2017 tornando ilegal o Chhaupadi, tradio hindu de exilar menstruandas forando-as a ficar nos estbulos e celeiros, por todo o perodo que durar seu perodo. E no apenas o incmodo de dormir com as galinhas, mulheres morrem por causa dessa prtica.
Em Julho uma moa de 19 anos morreu picada por uma cobra que entrou na cabaninha reservada s fs do ex da Marieta. Outra de 15 anos morreu sufocada depois que acendeu uma fogueira para se aquecer, na cabana de barro e pedra que era forada a ocupar, pelo terrvel crime de sangrar 5 dias sem morrer.

Vrias religies consideram mulheres impuras quando esto menstruando, ou todo o tempo, motivo pelo qual no podem ser ordenadas como pregadoras. Outras vo alm, comum em templos Hindus banir a entrada de mulheres durante o catamnio. (bota no Google)

Como se no bastasse todos esses incmodos, as mulheres incomodadas ainda tm que lidar com a realidade prtica da menstruao. Fora as alteraes de humor, clicas e outros sintomas, sangrar pela rua no agradvel.
Historicamente sempre foi algo intimo, passado de me para filha e qualquer conversa sobre o tema garante que os homens saiam correndo do recinto. O mtodo mais comum era a famigerada toalhinha. Comprovando que Douglas Adams estava certo, antigamente toda mulher sempre andava com uma toalhinha na bolsa, caso a Tia Flo (essa s funciona em ingls) aparecesse para uma visita surpresa.
Tks ao Dr cLimo

Problema que pano por muito tempo foi algo caro, e as toalhinhas, feitas de retalhos de lenis e roupas acabavam sendo lavadas, e quem j tentou tirar sangue de roupa sabe como isso complicado. A absoro tambm no era grande coisa, e se fosse um ms caprichado fatalmente os vestidos e mveis ficariam manchados com aquele lquido azul que as mulheres emitem, segundo aprendi com os comerciais de Sempre Livre.
Com o comeo da sociedade industrial surgiram opes como os Cintos Sanitrios, para facilitar a fixao das toalhinhas, algumas j vendidas em farmcias cortadas no tamanho correto.

No resolvia muito. Poucos lugares vendiam, era uma coisa mais de venda por catlogo, e acidentes aconteciam com frequncia, dada a baixa capacidade de absoro de tecido comum.
A grande virada aconteceu quando a Primeira Guerra Mundial comeou a pegar fogo. Soldados eram mortos e feridos aos milhares. Os hospitais de campanha no davam conta, e um produto em especial estava em falta e era muito caro mesmo quando disponvel: Algodo. No havia bandagens suficientes, e soldados morriam por causa disso.
Nos EUA a Kimberly-Clark j estava pesquisando alternativas, e em 1914 inventou o Cellu-cotton, um material feito com polpa de madeira com cinco vezes a capacidade de absoro do algodo, e custando uma frao do preo. O Exrcito Americano imediatamente adotou as bandagens feitas com o material, e a Kimberly-Clark ganhou rios de dinheiro estancando rios de sangue.
Rios de sangue no eram problema s dos baleados estropiados baionetados. Quem cuidava deles tambm tinha esse problema, e dado o tabu, as foras armadas no previam qualquer tipo de apoio para as enfermeiras na frente de batalha, se elas sangrassem por qualquer orifcio que no tivesse origem germnica.
Como sempre elas se viravam com retalhos e toalhinhas, mas logo perceberam que tinham disposio as bandagens de Cellu-Cotton, que passaram a usar. O resultado que logo todas elas estavam jogando tnis, indo praia, recebendo flores e todas aquelas coisas que as mulheres menstruadas que usam absorventes fazem.
Vrias escreveram para a Kimberly-Clark, relatando o uso e agradecendo pelo produto. Certeza que os homens que receberam as cartas ficaram horrorizados e desconfortveis, mas desconforto mesmo veio quando a guerra acabou, eles tinham centenas de toneladas de Cellu-Cotton e no sabiam o que fazer com aquilo. Era preciso um fluxo constante de sangue para estancar o prejuzo, mas onde conseguiriam tanto sangue e
Bingo! Um sujeito chamado Walter Luecke lembrou das cartas das enfermeiras, fez as contas e viu que com metade da populao do pas sangrando todo ms, o mercado estava garantido. O prximo passo era arrumar um fabricante para transformar o Cellu-Cotton em um produto, e a a coisa desandou.
Luecke tentou vrias empresas, e todos disseram no. Menstruao era algo ntimo e constrangedor demais, seria impossvel anunciar um produto relacionado com isso. Jornais no publicariam, cartazes gerariam reclamaes, mulheres ficariam envergonhadas de ser vistas com o produto.
Walter insistiu, e a direo da Kimberly-Clark comprou a idia. Iriam eles mesmos industrializar o produto, que depois de muita experimentao foi batizado de Kotex, de Cotton Texture.

A campanha inicial sequer mencionava explicitamente o uso do Kotex. Contavam com a inteligncia das mulheres para deduzir o que estava sendo dito nas entrelinhas. As farmcias e lojas por sua vez tinham pruridos em vender esse tipo de produto, em geral era algo comprado de forma quase subversiva.
As prprias mulheres no se sentiam bem, o que bem-feito, por zoarem adolescentes embaraados quanto tm que comprar preservativos.
Um dos slogans da campanha era pea pelo nome, assim voc no precisava dizer o qu queria, s o produto. Claro, s funciona se ningum sabe do que se trata. Hoje em dia quem quer ser discreto chega na farmcia e pede Sildenafil, e no Viagra. Dizem.
Outra tcnica foi deixar as embalagens no balco, com um cofrinho para a consumidora botar as moedinhas, pegar a caixa e ir embora. Funcionou bem, as caixas eram discreta, com o nome do produto e nenhuma descrio, mas outro mtodo foi mais eficiente ainda. Foi o primeiro uso registrado do modelo de self-service em lojas.
Algumas farmcias comearam a embalar Kotex em papel branco com uma fita azul, e deixar em uma pilha com um discreto aviso Kotex US$0,65. As consumidoras pegavam a caixa branca, e ningum fora o pessoal da farmcia sabia o que havia nela.
Nos primeiros anos o Kotex no rendeu muito dinheiro, a Kimberly-Clark teve que investir fortunas em publicidade at o pblico tomar conhecimento e ter curiosidade de experimentar o produto, mas depois que a demanda desandou, tiveram que sair comprando novas fbricas para manter a oferta.

Foi preciso uma guerra mundial, um sujeito teimoso e uma empresa determinada para emplacar um produto considerado bsico e essencial para metade da populao do planeta. Ou seja: mesmo quando h um mercado potencial imenso e cativo, no fcil fazer sucesso, e Economia vai muito alm de nmeros. Em ltima anlise envolve pessoas, e s vezes elas precisam ser convencidas que precisam de seu produto.