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A Guerra Mais Curta da História

Cardoso 11/12/2017

Bom dia crianças, antes de começar o texto de hoje, um pequeno esclarecimento: Alguns textos do Contraditorium terão uma versão em vídeo. Pois é, virei videomaker (que é como a gente chamava Youtubber nos Anos 80) . Agora eu transo vídeo. Assim incluirei nos textos o vídeo, que conta essencialmente a mesma história, mas não faz nenhuma diferença se você ignorar e só ler o texto. É uma opção para o leitor e um novo caminho para conseguir expandir meu público para outros formatos. De forma alguma isso significa que o Contra será negligenciado. Isso aqui ainda é minha casa minha terapia e minha fonte de álcool.
Portanto, vamos ao nosso causo de hoje:




Os jornais adoram reclamar das intervenções dos EUA no Oriente Médio como atoleiros intermináveis, mas sendo realista, são guerras limitadas e muito curtas. Se a Segunda Guerra Mundial não fosse tão abrangente seus seis ou sete anos nem piscariam no mapa das guerras. Vietnam durou 20 anos, Guerra Civil Argentina durou 66 anos, as Guerras Apaches foram 75 anos e a Guerra da Reconquista durou intermináveis 774 anos. (fonte)
O outro lado é mais raro e mais divertido, guerras curtas, e nenhuma dessas foi tão curta quanto a guerra Anglo-Zanzibar.
Pra quem não sabe, e eu não sabia, Zanzibar é um pequeno arquipélago na costa da Tanzânia. Ainda não se achou? Eis um mapa:

Se você ampliou a imagem viu que Zanzibar fica perto de Pemba, mas eu não vou me rebaixar e fazer as 343423 piadas que passam pela minha cabeça neste momento. É fácil demais.
Essa ilhazinha era um protetorado britânico, ou seja: Pequena demais para justificar o investimento de transformar em colônia. Imagine Bespin, mas com governantes bem mais picaretas que o Lando Calrisian. O Sultanato era alinhado com a coroa britânica, a ponto de terem um tratado onde um novo sultão só poderia ascender ao trono após a confirmação por parte do governo inglês.
Isso não deu muito certo quando em 25 de Agosto de 1896 bateu as botas o Sultão Hamad bin Thuwaini, e assumiu o trono seu sobrinho, que por não ser nenhuma Brastemp, não foi aprovado pelo cônsul britânico. Khalid bin Barghash tentou conseguir apoio de outros países, mas convenhamos quem vai se indispor com o Império Britânico por causa de uma ilhota perdida? Sim, Falklands, estou olhando pra vocês.
Khalid viu que a coisa não estava boa pro lado dele, então se aquartelou no palácio real com soldados, servos, escravos, concubinas e provavelmente eunucos.

Os ingleses por sua vez convocaram os navios nas proximidades, e durante o dia 26 tentaram convencer Khalid a sair do palácio e entregar o trono para Hamud bin Muhammed, o candidato preferido pelo Império Britânico. Não deu jeito.
Na manhã do dia 27, os ingleses deram um ultimato. Khalid ignorou e respondeu que queria uma conferência. Os ingleses mandaram ele pastar. Khalid então respondeu, às 8:30 da manhã, dizendo que não acreditava que os ingleses iriam atacar, e que pagaria pra ver.
Durante o dia 26 os ingleses haviam reunido no Porto de Zanzibar uma frota com 1050 fuzileiros, 3 cruzadores e duas canhoneiras. A marinha de Zanzibar se resumia ao HHS Glasgow, um navio velho que era o Iate do Sultão e dois barcos minúsculos. Pra piorar, o Palácio Real ficava quase na água:

Às 8:55 foi dada a ordem par ao ataque. Precisamente às 9:02 os primeiros tiros dos navios destruíam as peças de artilharia que Khalid havia conseguido juntar. Todas as quatro, e por peças de artilharia eu quero dizer estes canhões quase medievais.

Em seguida os navios miraram no palácio real, que por ser de madeira não resistiu lá muito bem. Nesse momento, em algo que pode ser chamado de Crime contra a Homennidade, um projétil explosivo atingiu em cheio o harém do Sultão, que pegou fogo na hora.
RIIP Harém

No mar o Glasgow bem que tentou, mas essencialmente um navio de passeio, com armamento mínimo incluindo uma metralhadora Gatling que havia sido presente da Coroa Inglesa, ele não teve muita chance. Atacou os navios ingleses e foi prontamente afundado, bem como os dois barquinhos, talvez só pela afronta.
Com o palácio em chamas, Khalid fugiu pra embaixada alemã, que ficava na mesma quadra, e a guarnição do palácio se rendeu. Ao final Zanzibar tinha 500 mortos, a maioria por causa do incêndio. Os ingleses tiveram um marinheiro machucado, mas que se recuperou totalmente depois.
A Guerra Anglo-Zanzibar começou, durou e acabou em um período de tempo de 38 minutos.
O nada honorável Khalid bin Barghash.

Khalid se asilou na embaixada alemã, mas não podia colocar os pés em solo Zanzibarense, ou seria preso. Os alemães arrumaram para que ele fugisse na maré alta, quando um barco chegou ao quintal da Embaixada Alemã, de onde ele pulou para bordo, sem pisar no chão fora da embaixada. De lá ele foi para a África Ocidental, então colônia alemã, foi capturado pelos ingleses em 1916, exilado em Santa Helena e nas Ilhas Seychelles (coitado) e eventualmente voltou para a África Ocidental, onde morreu em 1927.
Quanto aos derrotados, os britânicos ainda fizeram com que eles pagassem a munição que gastaram nessa presepada toda. Ao menos ninguém gastou dinheiro pagando hora-extra.