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Gallipoli, quando a inteligência venceu em meio a uma imensa derrota

Cardoso 30/03/2018

Existem alguns aforismos comuns a todos os exércitos. tipo “nenhum plano sobrevive ao primeiro contato com o inimigo”, mas o mais correto de todos diz que guerra ganha quem erra menos. Esqueça os relatos heróicos, as idéias geniais, os grandes generais. Todo mundo erra, todo mundo pisa na bola, e na véspera do lançamento da bomba atômica em Nagasaki um engenheiro descobriu que alguém havia soltado conectores errados, e passou a noite consertando. Pra piorar durante o vôo até o Japão a bomba se armou e estava prestes a explodir no meio do oceano. Dois interruptores que deveriam estar desligados estavam ligados.
Dentre os erros militares clássicos temos Gallipoli, uma campanha desastrosa para o Império Britânico durante a Primeira Guerra Mundial.
Gallipoli é o nome de uma península que forma o Estreito de Dardanelos, separando a Europa da Ásia e dando entrada para o Bósforo, que desemboca no Mar Negro (sorry Marquinho não vou chamar de Mar Preto). Fica onde é hoje a Turquia:


O Estreito de Dardanelos era um ponto focal pra todo mundo naquela Guerra. Os britânicos queriam controlar o estreito, pois assim teriam um posto avançado para proteger o Canal de Suez no Egito E as áreas de exploração de petróleo. A França via o controle da região como uma forma de aumentar sua influência na Síria e no Líbano.
Já a Rússia precisava do controle do Bósforo e de Dardanelos, só assim teria acesso ao Mediterrâneo. Até hoje os dois estreitos são estratégicos, formam um gargalo que inutilizaria toda a frota do Mar Negro, os únicos portos de águas quentes que os russos têm.
O Império Otomano por sua vez queria manter a posição por ser território deles E pelos outros motivos citados.
O Império Britânico não concordou, e montou uma mega-operação para invadir Gallípoli e controlar Dardanelos. Era uma ação rápida, de surpresa, que se tornaria o primeiro desembarque anfíbio da história moderna. Só que os ingleses não sabiam fazer um desembarque anfíbio, eles chegavam em regiões que eram lindas fortificações naturais cheias de turcos, que haviam se preparado por meses para defender a península.

O que seria uma guerra dinâmica se tornou uma nova guerra de trincheiras. Por 10 meses 3 semanas e 2 dias ninguém saiu do lugar. Os ingleses faziam novos desembarques, tropas turcas apareciam pra empacar o avanço. Ao menos o lado russo estava funcionando, Moscou havia pedido para que Gallipoli fosse atacada para desviar tropas turcas da frente russa, e dar um alívio aos soldados do Czar.
No total o Império Britânico mobilizou 489 mil homens, sendo 345 mil britânicos, 79 mil franceses, 50 mil australianos e 15 mil neozelandeses. Os turcos tinha 315.500 homens, mais 700 alemães. As baixas foram brutais.
Do lado britânico:

  • 160.790 baixas em combate
  • 3778 mortos por doenças
  • 90000 evacuados por doenças
  • 27169 franceses mortos
  • 20000 franceses evacuados por doenças

Dos 489 mil originais 302 mil se tornaram baixas, ou seja: Ou morreram ou ficaram incapacitados de lutar.
Eu não pretendo neste texto sequer arranhar a campanha da Gallipoli, as tempestades que inundavam as trincheiras e matavam afogados os soldados, os corpos das covas rasas trazidos pela enxurrada, os meses de frio e doenças. Na verdade o tom é outro, e parte já do final, quando os alemães supriram os turcos com canhões mais poderosos e a possibilidade de dizimarem os britânicos se tornou mais real.
Nessa hora decidiu-se que já chega, não sabe brincar não brinca, vamos pra casa, mas como recolher as tropas em massa sem que o inimigo se aproveite pra atacar?
Havia projeções de até 30 mil baixas durante a evacuação das tropas, mas as várias divisões conseguiram se organizar muito bem. Quando chegou a vez dos batalhões ANZAC, nome dados às tropas conjuntas da Austrália e da Nova Zelândia, tiveram um problema. Se parassem de atirar por muito tempo os turcos avançariam. Será que teriam que escolher voluntários para uma missão suicida, que ficariam para trás segurando o inimigo?
Não se depender do Cabo William Scurry.


Ele entrou em modo Full Apollo XIII, em modo Full McGyver, juntou tudo que tinha em volta em termos de suprimentos e pensou em como enganar os turcos. Ele pegou alguns cordões, duas latas de ração, peças de madeira e um rifle.
Uma das latas ele encheu de água, fez um furo no fundo para que a água caísse na lata de baixo, presa por cordão a uma pedra. Quando o peso da água fosse suficiente, a pedra cairia, e como estava presa ao gatilho, a arma dispararia.

Fazendo cada furo de um tamanho diferente, conseguiam que os rifles disparassem em uma sequência aleatória, aumentando o realismo. Um monte de gambiarras dessas foram feitas, ativadas e as tropas correram para as praias, embarcando.
Enquanto armavam os rifles, os homens que ficaram para trás fumavam cigarro atrás de cigarro, para gerar bastante fumaça e dar aos turcos a impressão que tudo estava normal. Durante as últimas três horas da evacuação os 2 mil homens remanescentes escaparam sem nenhuma baixa, enquanto os rifles disparavam.
O cabo William Scurry foi mencionado em vários relatórios, e logo foi promovido a sargento e ganhou a Distinguished Conduct Medal. Mais tarde ele seguiu para o Egito, onde continuou lutando.
Ele terminou a guerra como Capitão, deu baixa, mas se alistou de novo quando estourou a Segunda Guerra Mundial, a qual ele também sobreviveu. Scurry veio a morrer em 28 de Dezembro de 1963. Em sua sepultura a história de sua invenção é contada para todos os visitantes, inclusive os descendentes dos homens que ele salvou naquele fatídico dia.

Fonte: Australia War Memorial