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Jumbo – não era uma geladeira mas teria protegido o Indiana Jones

Cardoso 30/04/2018

Existe a impressão de que o Projeto Manhattan foi o mais avançado e tecnologicamente complicado empreendimento da Segunda Guerra Mundial. Barato não foi, em dinheiro de hoje custou US$27,7 bilhões de dólares, é um trocado mas só em ajuda dos EUA a União Soviética recebeu US$150 bilhões. O bombardeiro B-29, ele sim uma maravilha tecnológica e futurista e a única aeronave capaz de levar as bombas atômicas foi um projeto que custou o equivalente a US$41,59 bilhões.
Boa parte do dinheiro do Projeto Manhattan foi usado construindo as instalações de refino de Urânio e produção de Plutônio. Não era como 1985 onde você comprava Plutônio em farmácias, sintetizar o elemento custava uma fortuna e levava anos, não era permitido desperdiçar. E aí entra o problema de testar a bomba.
Havia dois projetos paralelos. Um usava um sistema de canhão, onde o núcleo de Urânio-235 era disparado em um alvo do mesmo material, atingindo massa crítica e iniciando a reação de fissão.

Era um modelo tão simples que nem iria ser testado. Só que a eficiência é muito baixa, a Little Boy, usada em Hiroshima tinha 64Kg de Urânio, dos quais só 0,6g foram transformados em energia, e para piorar tiveram que alterar o projeto. Originalmente ela usaria Plutônio, mas descobriram em 1944 que o estoque estava contaminado.
O Plutônio contaminado poderia ser usado em outro modelo de bomba, o de implosão. Nele uma série de explosivos cuidadosamente direcionados comprime uma esfera de Plutônio.

Na teoria a idéia funciona, mas na prática foi muito complicado criar uma explosão sincronizada em microssegundos, usando componentes dos Anos 40, onde a eletrônica era basicamente barro fofo e pedra lascada. Foram feitos avanços em engenharia e mecânica de precisão que são usados até hoje, e para piorar Los Alamos não era como Fukushima, Plutônio não dava em árvores. (too soon?).
O Dispositivo, como era chamada a bomba de implosão precisava ser testado, e muita gente apostou que não iria dar certo, que a detonação seria parcial, que nem explodiria, etc. Alguém sugeriu que já que provavelmente não funcionaria, ao menos o Plutônio, o precioso Plutônio deveria ser recuperado. A solução? Um equipamento de contenção que resistisse à explosão convencional da bomba. Assim se a parte nuclear não funcionasse, era só abrir a caixa, raspar o Plutônio das paredes e usar no próximo teste.
Os cientistas se reuniram para calcular as dimensões e características do equipamento. O resultado foi um cilindro de 7,62 metros de comprimento, 3,05 metros de diâmetro, paredes com 35,6cm de espessura de puro aço, peso total 194 toneladas. Foi carinhosamente batizado de Jumbo.

Jumbo foi construído por uma empresa de Barbeton, Ohio, que tinha experiência em fazer caldeiras para a Marinha. Aí surgiu outro problema: Como levar um monstro de 194 toneladas por uma distância de 2500Km até o local do teste. Muitas pontes ferroviárias no caminho não aguentariam o peso, tiveram que planejar toda uma rota especial. Foi a carga mais pesada já transportada por trem até então.
Chegando na estação final, mais 80Km de deserto até o local do teste. Construíram um trailer especial com 64 rodas só para levar o Jumbo.

Aí com tudo pronto, os cientistas dizem que não precisam mais do Jumbo, a confiança de que a detonação vai ocorrer corretamente está bem alta e o Jumbo iria interferir com os instrumentos de medição. Em resumo: Obrigado, mas não obrigado.
Por mais que o Projeto Manhattan fosse prioritário e tivesse uma carteira sem-fundo de onde tirar dinheiro, ainda era preciso prestar contas, e o General Leslie Groves, o bambambam do projeto precisava dar um jeito de usar o Jumbo, afinal foram US$277 milhões em dinheiro atual pra construir aquela garrafa térmica gigante.

Well, se é pra usar durante um teste nuclear, vamos usar. Jumbo foi suspenso em uma torre a uns 600 metros de distância da bomba nuclear que seria testada. Se há uma forma de se livrar de algo indesejado, é assim.

Agora é só apertar o botão e..




Problema resolvido, bye-bye Jumbo, certo?
Jumbo não colaborou. A torre onde ele estava pendurado foi vaporizada pela explosão de 20 kilotons, mas fora um amassado que o Martelinho de Ouro resolvia de letra, Jumbo permaneceu intacto.

Jumbo foi um elefante branco que se tornou uma batata quente na mão do Exército, ficou esquecido até o final da guerra, quando o General Groves decidiu que era hora de se livrar dele. Como havia sido projetado para testar uma explosão, inventaram um teste onde 230Kg de cargas de demolição foram colocadas dentro do cilindro, na parede do fundo para anular a capacidade do Jumbo de resistir a uma detonação, que normalmente aconteceria em seu centro.
Mais uma vez, Jumbo decidiu que não morreria em silêncio. A detonação foi amplificada e embora a área de segurança fosse de uns 200 metros, pedaços do Jumbo foram encontrados a 1Km do centro da detonação. Um pedaço de 15 toneladas foi parar a quase 300 metros.


Este pedaço aqui tem umas duas toneladas. Note a espessura da parede.

Depois disso tudo Jumbo tirou a poeira dos ombros e no melhor estilo Cavaleiro Negro disse “é só um arranhão”. O cilindro principal havia sobrevivido.

Depois dessa o Exército desistiu de tentar destruir o Jumbo. Ele ficou abandonado no deserto até ser redescoberto nos Anos 70, quando foi movido para a entrada do Trinity Atomic Bomb Site, que hoje é uma atração turística, aberta algumas vezes por ano para visitação. Turistas podem ver o ponto zero da primeira explosão nuclear, aprender sobre a História do Projeto Manhattan e até tirar fotos dentro do Jumbo.
Yeah, eu sei

Outros fragmentos do Jumbo estão expostos em vários museus, com direito até a placa comemorativa.


No final Jumbo sobreviveu para demonstrar que nem generais, nem bombas atômicas são capazes de vencer engenheiros realmente obstinados, com tempo e dinheiro suficientes para fazer um excelente trabalho.