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Sobre porta-aviões submarinos e velhos guerreiros

Cardoso 06/08/2018
Os Estados Unidos tiveram uma vantagem estratégica única na Segunda Guerra Mundial: Puderam combater sem ter sua base industrial ameaçada pelo inimigo. Fora um ou outro ato de sabotagem, os EUA no total foram 4 ou 5 ataques ao território americano continental. Um dos maiores foi um bombardeio com canhões de um submarino japonês que resultou em US$500,00 de prejuízos.
Submarinos japoneses são as palavras-chave. Somente eles tinham a autonomia para chegar na Costa Oeste dos EUA e realizar missões de observação e ataque, e o mais famoso deles no contexto foi o I-25, um verdadeiro guerreiro.
Ele participou do ataque a Pearl Harbor e depois rumou para a costa dos EUA, onde afundou um navio mercante, o SS Connecticut a 16Km da terra. Em 1942 ele participou de várias missões na Austrália e no Alaska. Em 21 de Junho o capitão deu ordem para seguirem barcos de pesca indo em direção ao rio Colúmbia, no Oregon. A idéia era evitar as águas minadas. Subiram o rio até chegar a 16 quilômetros do Forte Stevens começaram uma barragem com o canhão de 140mm do submarino.
O forte estava totalmente no escuro, como era a norma. Os homens acordaram com os tiros e correram confusos para seus postos, a maioria só de roupa de baixo. Apesar dos projéteis de 140mm serem bem potentes, o Forte Stevens era uma relíquia da Guerra Civil, construído para durar e aguentar muita paulada. Depois de 17 tiros os únicos danos foram algumas linhas de telefone e uma tela em uma quadra de baseball. Para surpresa dos japoneses, ninguém contra-atacou o Império.
A decisão -bem inteligente- foi do comandante. Ele achou que atirar de volta apenas indicaria ao inimigo a posição exata do forte, e o armamento obsoleto sequer conseguiria atingir os japoneses. Eles estariam dizendo “fiquem a uma distância segura, atirem até destruir a gente e depois subam o rio destruindo os estaleiros e outras indústrias estratégicas.”
O I-25 tendo cumprido sua missão foi embora, mas voltaria em breve.
Com 2584 toneladas e 108.7 metros de comprimento, o I-25 era um submarino gigantesco, fazia 43.5Km/h na superfície, o que é excelente para uma embarcação de seu tamanho, e tinha autonomia de 25.928km, mas sua característica mais inusitada era ele ser um… porta-aviões.
Claro, quando a gente escuta “porta-aviões submarino” imagina algo digno da SHIELD mas sendo honeste o I-25 parece mais o porta-aviões submarino da ABIN. Ele tinha um hangar onde guardavam um hidroavião Yokosuka E14Y desmontado. Ele era usado primariamente para reconhecimento, mas um oficial aviador chamado Nobuo Fujita teve idéias mais sinistras.
nobuo.tifFujita acompanhava as notícias sobre os EUA fazia tempo, e lembrava de incêndios florestais devastadores. Ele imaginou que poderiam soltar bombas incendiárias nas florestas do Oregon, uma das principais regiões madeireiras dos EUA, e as chamas se espalhariam até as cidades, causando pânico e destruição, muhahahahhah!
O I-25 levava uma carga de seis bombas incendiárias de 76Kg, o avião conseguia levar duas por vez. No dia 15 de Agosto de 1942 Nobuo Fujita decolou e lançou as duas na floresta, mas o Oregon sendo Oregon, havia chovido horrores e nada aconteceu.
Outra oportunidade surgiu dia 9 de Setembro, e mais uma vez ele decola e bombardeia a mata perto de Brookings, aprazível cidadezinha na costa do Oregon. Para azar de Fujita e do Japão e sorte dos habitantes da cidade que hoje tem 6336 habitantes, o clima não ajudou e dois sujeitos viram o fogo na mata, correram e passaram a noite apagando o fogo até os bombeiros chegarem pela manhã.
As patrulhas aéreas, algumas bombas americanas bem-colocadas e navios mal-encarados fizeram o capitão do I-25 considerar a missão cumprida e se mandar. Ele ainda afundaria vários navios aliados, além de um submarino soviético -que ainda eram neutros- e só teria sua história encerrada um ano depois, quando em 3 de Setembro de 1943 cargas de profundidade do USS Ellet o afundariam, sem sobreviventes. Mas nossa história não acaba aqui.
Nobuo Fujita deixou o I-25 depois do bombardeio no Oregon, virou instrutor e em 1944 começou a treinar para kamikazi, mas a guerra acabou antes que ele cumprisse seu destino. Mais tarde todo o horror da guerra caiu como uma ficha gigante, e ele nunca se perdoou pelas coisas horríveis que havia feito ou tentado fazer, até 1962.
Nessa época a comunidade de Brookings estava planejando seu festival anual da Azaleia, e os organizadores resolveram que ficaria muito bem um gesto de boa vontade, paz e perdão, então convidaram Fujita para conhecer a cidade que ele quase incendiou.
O Governo Japonês ficou bem desconfiado, e só liberaram a viagem depois de muita conversa e promessas de que Fujita não seria julgado como criminoso de guerra. Com a garantia, ele a esposa e o filho viajaram para os EUA, sem ter muita certeza do que esperar.
Fora alguns protestos nos jornais eles foram muito bem recebidos, ele ganhou a chave da cidade, pilotou um avião sobre o local onde uma das bombas havia caído, ele ficou hospedado na casa de um dos organizadores, as famílias forjando uma amizade improvável.
Em uma cerimônia na biblioteca da cidade, Fujita tentou retribuir o carinho que havia recebido e ao mesmo tempo pagar uma dívida que poderia ser esquecida mas nunca paga. Por ter tentado destruir as vidas de toda uma cidade, ele entregou a Brookings seu bem mais precioso: A espada samurai de sua família, com mais de 400 anos de idade e levada com ele em todas as suas missões.
O que Fujita não contou para ninguém, e só revelou muitos anos depois é que ele viajou com medo de que Brookings não aceitasse seu pedido de desculpas, que ele fosse xingado e que atirassem ovos. Nesse caso ele já tinha a resposta: Iria se retirar para um local isolado e cometeria suicídio ritual, seppuku, com a espada de seus ancestrais.
Isso não foi necessário. Antes de ir embora ele doou US$1000,00 para que fossem comprados livros infantis sobre o Japão, Fujita queria que as crianças dos dois países conhecessem suas culturas, e assim nunca mais guerreassem entre si. No total ele doou US$8 mil para a biblioteca.
Mais tarde, mesmo passando por dificuldades financeiras ele conseguiu pagar a viagem de três estudantes de Brookings para conhecer o Japão em 1985, quando foi presenteado com uma carta de um assessor do Presidente Reagan, agradecendo seus esforços pela paz.
Fujita voltou a Brookings em 1990, 1992 e 1995, quando participou de uma cerimônia transferindo sua espada da prefeitura para a biblioteca da cidade. Ele plantou uma árvore no local onde suas bombas caíram e permaneceu amigo da cidade até 1997, quando sua saúde o abandonou.
As notícias de que Nobuo Fujita estava morrendo chegaram até Brookings, e em uma agilidade incomum para tudo que se relaciona a governos, a câmara municipal se reuniu e outorgou a ele o título de Cidadão Honorário.
Nobuo Fujita morreu em paz, sabendo que recebeu a aceitação final da cidade que passou a vida pedindo perdão. Ele se foi em 30 de Setembro de 1997, aos 85 anos. No ano seguinte sua filha enterrou parte de suas cinzas junto da placa comemorativa, no local das bombas.
Até hoje os parentes de Fujita visitam a cidade e a árvore que ele plantou.
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