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O incrível resgate na Terra dos Super-Homens Negros

Cardoso 28/08/2018
Um dos maiores inimigos de um exército é a moral baixa, e poucas coisas são mais desmoralizantes do que o tédio. Arrumar algo pra distrair as tropas sempre foi essencial, e isso sem-querer acabou causando um acidente trágico e uma história fascinante que ficou conhecida como O Resgate de Shangri-lá, além da morte de um porco.
A rigor a Shangri-lá original ficava nos Himalaias, ao menos no livro Paraíso Perdido, mas foi esse o nome que aviadores americanos batizaram um vale descoberto em 1944, na Nova Guiné Holandesa, colônia que mais tarde se tornaria independente para ser anexada pela Indonésia.
Os mapas da época mostravam uma região com uma cadeia de montanhas, mas um piloto entediado resolveu investigar a descobriu um imenso vale, com dezenas de aldeias. Vôos rasantes mostraram habitantes, um povo nunca antes visto, vivendo na idade da pedra.
Shangri-lá para os íntimos, mas o nome oficial é Vale Baliem.

Com 64Km de comprimento e 12Km de largura, o vale era lar de 120 mil pessoas, com plantações e criações de animais. Isso despertou a curiosidade de muita gente, inclusive dos militares baseados em Holândia, futuramente batizada de Jayapura, a então capital do que viria a se tornar Papua, Nova Guiné é outro país.
Com as tropas japonesas recuando sem para e o fim da guerra na Europa, havia pouco o que fazer em Holândia (não confundir com Rolândia, que estranhamente fica no Paraná, não no Rio Grande). Um dos passatempos era ouvir as histórias dos pilotos que sobrevoavam o Vale Oculto, e a cada passagem, a cada vez que a história era contada, ela era enriquecida com detalhes direto da imaginação dos pilotos.
Alguns contavam que os nativos criavam porcos enormes, do tamanho de cavalos. Outros descreviam como os misteriosos habitantes eram grandes e fortes, logo a versão-padrão dos habitantes do vale era de gigantes, fortes e fisicamente soberbos. Alguns chegaram a chamar os nativos de “Super-homens negros”.
Uma aldeia Dani vista do alto.
Com o tempo o vale passou a ser chamado de Shangri-lá, a terra oculta nos Himalaias, onde ninguém envelhecia ou ficava doente, vivendo em paz e harmonia, descrita no livro de 1933 Horizonte Perdido, de James Hilton, e no filme de mesmo nome de 1937. Ironicamente não poderiam estar mais distantes da realidade.
Como as pessoas não estavam se contentando com os relatos, começaram a rolar vôos de observação, disfarçados de “treinamento” para os pilotos mas onde os aviões iam cheios de gente da base para ver os nativos. Um desses vôos decolou dia 13 de Maio de 1945 para se tornar uma das maiores tragédias e aventuras épicas de todos os tempos.
O avião era o Gremlin Special, um C-47 (versão militar do DC-3), aeronave excelente, pau pra toda obra, uma verdadeira Kombi voadora. O piloto era o Coronel Peter Prossen, o co-piloto o Major George H. Nicholson Jr. Prossen queria fazer aquela viagem faz tempo, nunca havia visto Shangri-lá com seus próprios olhos.
Junto com eles 19 passageiros. No total 6 recrutas, 9 oficiais e 9 mulheres do WAC, o Corpo Feminino do Exército, uma unidade criada para suprir boa parte do trabalho não-combatente, liberando homens pirocos machistas para exercer seu privilégio de levar pipoco dos inimigos. Todos estavam animados com o passeio, era difícil conseguir lugar em um desses vôos.
O Coronel Prossen estava igualmente animado, tanto que deixou o comando a cargo do co-piloto e foi confraternizar com os passageiros. Esse foi seu grande erro. O Major Nicholson era novato, não conhecia as manhas e quando percebeu estava na entrada do vale, cercado de montanhas no meio de nuvens, sem nenhuma orientação fora os instrumentos.
Um baque surdo alertou que haviam batido em alguma coisa. Ele acelerou tudo que o C-47 podia, puxou a coluna de direção e tentou subir, mas as árvores começaram a atingir a barriga do avião, e sem aviso o Gremlin Special se espatifou na lateral de uma montanha.
A cauda se partiu, o combustível começou a pegar fogo, quem conseguiu sair ouvia os gritos dos que sufocavam e queimavam presos aos cintos de segurança. Dos 24 a bordo, só cinco se salvaram: O Tenente John McCollom, a Cabo Margaret Hastings, o Sargento Kenneth Decker, a Sargento Laura Besley e a Soldado Eleanor Hanna.
McCollom retirou Besley e Hanna de dentro do fogo, ambas estavam muito mal. Hastings tinha queimaduras profundas nas pernas e em uma das mãos, Decker estava com um ferimento enorme na cabeça, e foi achado perambulando sem se lembrar do que havia acontecido.
Eles estavam a 250Km da base, 250Km que poderiam estar infestados de soldados japoneses escondidos, 250Km em meio a dezenas de milhares de nativos que muita gente acreditava serem guerreiros implacáveis e canibais. As perspectivas eram sombrias e a moral, zero. Margaret estava vendo sua melhor amiga, Laura, morrer diante de seus olhos. O Tenente McCollom havia perdido seu irmão gêmeo no acidente.
Quando ouviram os gritos do Capitão Herbert Good, McCollom correu para ajudá-lo, ele aparentava estar sem nenhum ferimento grave, mas quando o jovem tenente se aproximou, o Capitão foi envolto pelas chamas.
McCollom, Decker e HastingsOs sobreviventes decidiram sair dali para evitar o mesmo destino. Margaret ainda teve tempo de tirar sua blusa, arrancar seu sutiã e tentar fazer uma bandagem para seu pé lacerado; seus sapatos haviam sumido no acidente.
Após algun tempo ele McCollom e Decker decidiram voltar ao avião para tentar achar suprimentos. Na cauda arrancada acharam um bote salva-vidas, um kit de primeiros socorros com bandagens e alguma morfina, lonas, latas de água, um espelho sinalizador e Charms, uma bala que vinha em toda ração da 2a Guerra e que quem assiste o canal do Steve1989MREInfo conhece muito bem.
Voltando para o resto do grupo, eles trataram dos ferimentos, deram morfina e antibióticos para as mulheres mais debilitadas e se enrolaram nas lonas para passar a primeira noite na encosta de uma montanha hostil. Um avião passou mas sequer o enxergaram, deixando claro que só teriam chance de resgate se achassem uma região plana com uma clareira.
Durante a primeira noite Eleanor morreu, para surpresa de ninguém. Seu corpo estava todo queimado, ela não tinha mais roupas, só seu rosto estava intacto. No dia seguinte foi a vez de Laura, para desespero de Maggie. Os únicos sobreviventes do Gremlin Special eram um tenente de 26 anos, uma Cabo de 30 e um sargento de 34. Os dois últimos bem feridos, mas a jornada precisava continuam.
Eles desciam a montanha seguindo as correntes de água, dormiam nas margens enlameadas e ouviam barulhos estranhos. Em uma manhã tiveram certeza de que não estavam sozinhos; uma pegada na lama era incontestavelmente humana.
Apesar de todo o horror, Maggie (ela odiava esse apelido) não era a clássica mocinha em apuros. Várias vezes ela tomou a dianteira, não reclamava das dores horríveis que sentia nas pernas infeccionadas, e quando seus longos cabelos começaram a prender na floresta densa, ela pediu que o Tenente McCollom os cortasse com seu canivete.
Tenente John McCollomNa base a situação era de puro desespero. Perder um avião era ruim, um com NOVE WACs? O público americano não estava pronto pra idéia de mulheres morrendo em guerras, acontecia mas era raro. Aviões de busca foram despachados incessantemente, mais de 60, o que por si só era muito perigoso. Durante toda a guerra os aliados perderam mais de 600 aviões na Nova Guiné, a maioria para acidentes por causa do clima imprevisível.
11 da Manhã do terceiro dia eles chegaram a uma pequena clareira quando ouviram um avião se aproximando. Estavam salvos! Espalhando as lonas e o bote salva-vidas laranja no chão, acenaram freneticamente. Na primeira passada o avião não demonstrou tê-los visto, mas logo ele voltou e -cumprindo o ritual eternizado pela realidade e pelos filmes- balançou as asas. Em seguida jogou dois botes salva-vidas para marcar o local e foi embora.
Os três celebraram e planejavam voltar para casa em dois ou três dias. Se deram ao luxo de brincar, o Sargento Decker disse:
“Acho que um de nós vai ter que se casar com a Maggie e dar a esta aventura o final romântico ideal.”
McCollom Deu uma conferida bem exagerada na pobre sargento, suja, machucada faminta, e soltou:
“Ela vai ter que colocar mais carne nos ossos pra eu me interessar.”
Indignada com a esnobada, Maggie respondeu:
“Eu não casaria com você nem que fosse o último homem do mundo, vou me casar com o Decker!”
Por trás da brincadeira os três estavam exaustos e famintos. Pior, as pernas de Maggie estavam gangrenando, junto com as costas de Decker, que escondeu de todos seus ferimentos mais sérios, e para piorar, o inconfundível barulho de cachorros se aproximava. Seriam cães selvagens? Ou pior, seriam cães de caça?
Logo os cães se aproximaram, e junto com eles os tais super-homens negros canibais guerreiros gigantes, que não eram super, nem gigantes nem (muito) canibais. Muitos anos depois, quando confrontados com essa imagem, eles riram dizendo que não eram canibais, só comiam as mãos dos inimigos.
Diante dos três americanos estavam os Dani, uma das populações mais primitivas do mundo. Eles usavam machados de pedra, não conheciam a metalurgia nem a cerâmica. Estavam começando a desenvolver a agricultura e criavam porcos semi-selvagens. Sua língua só sabia contar atê 3, e só tinham duas palavras para cores: Mili, para preto, marrom, verdes e azuis e Mola, para brancos vermelhos laranjas e amarelos.
Os Dani eram tão primitivos que não haviam sequer inventado a religião. Eles acreditavam que a Lua era um homem e o Sol sua esposa, acreditavam em espíritos de ancestrais e fantasmas mas não haviam ainda inventado os deuses.
Eles aprenderam a plantar e processar tabaco, mas não sabiam ainda destilar ou fermentar álcool, o que era meio desanimador mesmo sendo uma sociedade poligamista, até porque depois de ter um filho as mulheres ficavam 5 anos sem sexo, e homens e mulheres dormiam em prédios comunais separados, em aldeias de 40 a 50 pessoas.
O mais fascinante é que os Dani eram tudo menos o povo pacifico de Shangri-lá. Eles eram essencialmente guerreiros, nas palavras de um deles, “Se não houver guerra, nós morremos”. As tribos guerreavam entre si, às vezes se uniam a outras e guerreavam como clãs, às vezes trocavam de alianças e guerreavam com antigos aliados.
Em uma terra de fartura, onde todo mundo tinha tudo que precisava para viver, a guerra não era por território, bens, alimentos. Era uma guerra eterna por honra e para satisfazer os antigos espíritos. Quando um guerreiro era morto seu espírito precisava ser aplacado com a morte de um guerreiro inimigo, e assim em diante.
As batalhas eram extremamente ritualizadas, os dois lados combinavam hora e local, em geral uma terra de ninguém entre duas aldeias, para não atrapalhar o dia-a-dia das mulheres. Às vezes um dos lados recusava, e todo mundo ia pra casa. Outras vezes cancelavam por causa da chuva, e houve casos da guerra acabar ainda na fase da provocação, quando um lado contou uma fofoca bem cabeluda sobre a esposa de um dos inimigos, e os dois lados caíram na gargalhada.
A guerra para os Dani era esporte, cerimônia, diversão e morte. Para as meninas Dani, era mutilação. Quando um parente próximo morria, para aplacar os espíritos uma das falanges dos dedos da mão era arrancada com uma pedra afiada. Algumas mulheres mais velhas só tinham cotocos dos dedos.
Não havia mulheres no grupo, só homens brandindo machados de pedra, com colares de conchas, presas de porcos no nariz e vestindo apenas uma espécie de capa no pênis:
Os três não tinham a menor condição de lutar se fosse preciso. O único razoavelmente em pé era o Tenente McCollom, e sua única arma era um canivete suíço. Maggie percebeu a situação e deu a ordem: Sorriam, sorriam MUITO.
Dentes à mostra e oferecendo as balas Charm para os nativos, eles acalmaram os ânimos até atraírem o que parecia ser o chefe. Seu nome era Wimayuk Wandik, mas os visitantes o chamaram de “Pete”. Eles acreditaram que sua atitude havia sido suficiente, mas o que os salvou foi sua pele branca.
John cumprimenta Pete.
Uma antiga lenda Dani, a Uluayek, contava que um dia visitantes de um vale nos céus desceriam por uma corda, seriam espíritos de pele branca, cabelos longos e olhos claros. Esses espíritos trariam uma era de mudança, mas Pete preferiu tratar bem os espíritos. Se eles tivessem noção de que Maggie e seus companheiros eram humanos, seriam mortos na hora.
Quando os espíritos sorriram para os Dani, foram correspondidos, e logos os dois grupos separados por dezenas de milhares de anos estavam confraternizando. Os Dani ficaram maravilhados com o espelho de bolso de Maggie, Pete cuidou dos ferimentos espirituais dela e de Decker, doces foram oferecidos e recusados, os Dan não aceitavam presentes.
Kenneth DeckerCom o cair da noite os nativos foram embora, mas no meio da madrugada Maggie acordou com Pete a observando. Ele havia voltado para ver se estavam todos bem.
No dia seguinte um C-47 lançou um caixote de suprimentos com um walkie-talkie, e o resto do mundo finalmente descobriu o que aconteceu com o Gremlin Special. Junto foram lançados caixotes de suprimentos, mas um deles caiu sem que o para-quedas abrisse na casa de uma jovem chamada Yunggukwe, matando o porco de estimação que ela havia acabado de ganhar. 60 anos depois ela ainda estava ressentida.
Maggie por sua vez não estava muito melhor. McCollom e Decker voltaram de sua expedição e só conseguiram encontrar latas de tomate e suco de… tomate. Os dois comeram sem problema, mas Maggie odiava tomates, e mandou os dois voltarem para a selva. Voltaram com kits de sobrevivência que só tinham de comida chocolate, e ela odiava chocolate, depois de sobreviver vários dias comendo balas.
Na base em Hollândia, os planos para resgatar os sobreviventes estavam a todo vapor, mas a prioridade era atendimento médico. O homem ideal para executar a missão era o Capitão Cecil Earl Walter Jr, oficial do exército que passou a infância nas Filipinas, conhecia e amava a cultura local, falava a língua e respeitava o povo. Ele foi voluntário para comandar o 5217o Batalhão de Reconhecimento, uma tropa de elite formada só por soldados filipinos e americanos de origem filipina.
Ele odiava os japoneses pelo que tinham feito com seu país adotivo, e ainda tinha o problema de viver à sombra do pai, um oficial embrenhado em ações de guerrilha daquelas bem heroicas. Quando surgiu a chance de participar do resgate em Shangri-lá, ele não pensou duas vezes, mas não podia falar por seus homens.
Capitão Walter e seu tijorola.O Capitão explicou que iriam saltar em uma região não-mapeada, sem estradas ou caminhos para fora do vale. estariam a centenas de Km e meses de caminhada em território hostil até chegarem na civilização.
Os médicos que saltariam inicialmente teriam as piores condições possíveis, saltando quase certamente no meio do mato. Os nativos podiam ser amigáveis ou hostis. E principalmente, não havia nenhum plano para resgatar as pessoas do vale, até aquele momento nada havia sido decidido. Eles saltariam sem a garantia de que iriam ser trazidos de volta.
Ao final da preleção, todos os membros do batalhão, sem exceção se voluntariaram para a missão.
Capitão Walter e seus homens.
Enquanto isso os aviões de suprimentos continuavam a lançar suas cargas, um deles trouxe uniformes limpos que só serviam em Maggie, mas nenhuma lingerie. Ela havia usado suas roupas de baixo para fazer ataduras, e o pessoal da base era pudico demais para incluir nos pacotes calcinhas mesmo as não-exocet, modelo que nem havia sido inventado aliás.
No sexto dia finalmente conseguiram localizar uma carga de rações de combate, com comida de verdade. Os três se deliciaram com ovos e bacon, presuntada, cozido de vetais, leite, chá, chocolate, café, mas comeram tudo frio, estavam exaustos demais para montar os fogões de campanha.
Saltando de para-quedas a alguns quilômetros dos sobreviventes, os dois médicos, o Sargento Benjamin “Doc” Bulatao e o Cabo Camilo “Rammy” Ramirez logo foram encontrados por “Pete”, que instruiu alguns garotos para levar os dois novos “espíritos” para o acampamento, uma jornada de algumas horas no meio da selva densa.
Os dois começaram a árdua batalha de tentar salvar Maggie e Decker. Os dois estavam com feridas gangrenando, Maggie com risco de perder as pernas, e Decker com horrendas queimaduras nas nádegas e na parte de trás das pernas. Foram longas semanas removendo as gazes grudadas nas feridas, limpezas com água oxigenada, aplicação de sulfa e remoção com tesoura do tecido infeccionado.
Maggie e as crianças.
Enquanto isso na base os planos de resgate continuavam. A idéia de todo mundo, helicópteros não era viável, os modelos de 1945 não conseguiam voar acima das montanhas que cercavam o vale. Havia também a possibilidade de subir os rios com um barco de patrulha, até uns 80Km do vale, e fazer o resto da jornada a pé, mas isso levaria semanas. A idéia mais absurda de todas acabou sendo a única viável:
Mandar tropas para limpar uma clareira, pousar com um planador, montar uma estrutura de captura, passar com um avião voando rasante, prender a corda do planador e arrancá-lo do solo.
É uma idéia basicamente insana, isso havia sido feito poucas vezes antes, em geral para recolher feridos em situações desesperadas, e sempre em locais mais apropriados e ao nível do mar, mas era a única solução.
Saltando com seus homens de uma altitude pouco acima de 100 metros, o Capitão Walter pousou em um terreno sem plantações ou casas a uns 30Km do acampamento dos sobreviventes. Lá eles iriam construir a pista de pouso dos planadores, mas antes tinham que lidar com o comitê de recepção. Um grupo de nativos se aproximava. O Capitão avisava o tempo todo para seus homens não darem sinais de hostilidade e de forma alguma dispararem suas armas.
Os nativos estavam curiosos. Alguns acharam que eles eram espíritos, outros que eram guerreiros que fugiram descendo do céu por um cipó, mas o que mais intrigava os Dani eram as roupas. Eles não tinham o conceito de tecido, se cobriam de lama quando estavam de luto, e só. Por isso apalpavam e abraçavam os soldados, a ponto de deixar vários incomodados. Alguns relatos dizem que os Dani estavam “fazendo amor” com os homens de Walter, que não eram muito chegados no amor que não ousa dizer seu nome.
Em um show de antropologia errada, Walter achou que os nativos estavam pensando que ele e seus homens eram mulheres, então comandou todo mundo para… tirar a roupa.
Os Dani ficaram horrorizados com o show de bundas brancas, pois na cultura Dani não há situação mais embaraçosa do que ser visto em público sem a capa de piroca. Botou a capa, o sujeito está com roupa de gala. Tirou a capa, tampem os olhos das crianças.
No acampamento dos sobreviventes os Dani já aceitavam a presença dos visitantes como algo normal, com direito aos nativos ajudando a encontrar os caixotes de suprimentos e até um pioneiro aeronáutico Dani, um sujeito que pegou um dos para-quedas, subiu em uma árvore de 15 metros e precisou de todo o convencimento de McCollom para não se jogar lá de cima.
Maggie <3Outros casos eram mais divertidos e menos perigosos. Maggie ainda não havia tido problemas com sua menstruação, que nas WACs era algo muito irregular por causa da dieta, tensão, etc, mas McCollom não queria arriscar, e pediu para que na próxima carga de suprimentos mandassem uma caixa de Kotex. O Sargento Jack Gutzeit, operador de rádio na base recebeu o pedido e foi até a comandante das WACs, que o expulsou dizendo que suprimentos médicos eram responsabilidade do comandante do hospital.
O comandante do hospital disse que não era com ele, “essas coisas de mulher” eram com a comandante das WACs.
De saco cheio o Sargento Gutzeit montou uma Conference telefonando para os dois, disse que a Maggie precisava dos absorventes, o avião ia decolar em uma hora e que se não estivesse levando a carga de Kotex ele iria dar queixa direto ao General.
Desse dia em diante todos os carregamentos de suprimentos tinham várias caixas de Kotex, Maggie ficou afundada em absorventes, que mais tarde foram bem úteis para acolchoar as alças das mochilas dos soldados.
Maggie virou uma atração turística para os nativos, depois que um dos médicos improvisou um chuveiro para ela, vários meninos se acotovelavam para vê-la tomar banho. A notícia se espalhou para a tribo de que Maggie era uma mulher, e a conclusão lógica era que ela era a Rainha daquele estranho grupo de espíritos.
No dia 22 de Maio de 1945 o Capitão Walter dividiu o grupo, deixando uma parte construindo o acampamento-base, e seguiu em direção ao acampamento dos sobreviventes. Ele contou com ajuda de carregadores nativos, que trocavam de lugar com outras tribos, à medida em que iam se afastando.
Eles não sabiam mas “Pete” havia convocado uma rara trégua, onde todas as tribos do caminho cancelaram suas guerras e se comprometeram a não ferir os visitantes. Em uma raridade que beira o ineditismo, a presença do homem-branco trouxe paz como aquela terra nunca havia visto.
Maggie entre seus dois médicos, o Cabo Ramirez e o Sargento Bulatao.À medida em que Maggie e Decker iam melhorando, a notícia do acidente se espalhava pelo resto do mundo. Logo a base estava cheia de jornalistas que se espremiam nos vôos de abastecimento, brigando pela chance de cobrir ao vivo a missão, e talvez até ver do alto alguns dos sobreviventes e dos misteriosos nativos. Maggie, Decker, McCollom e Walter respondiam entrevistas pelo rádio, jornalistas traziam mensagens de parentes e fãs.
O Capitão Walter, que havia chegado querendo aventura e glória, não era mais o mesmo. Ele estava ressentido com a forma abertamente racista como o mundo tratava seus homens. Ele fazia questão de exaltar em todas as entrevistas a coragem dos médicos, mas isso era sempre omitido dos textos.
Maggie por sua vez era convidada pela esposa de “Pete” para visitar a aldeia, normalmente espaço proibido para todos os outros “espíritos”. As duas se tornaram amigas mesmo com a barreira da língua. Em seu diário ela não mais chamava os Dani de “Selvagens”, eles eram os maiores amigos que ela faria em toda sua vida, pessoas honradas e boas.
Quando chegou o dia de descer para o acampamento-base, todos ficaram desolados, incluindo os médicos, que passavam boa parte de seu tempo livre cuidando dos nativos nas aldeias próximas. Quando Maggie foi procurar Pete, o encontrou escondido com outros homens, todos chorando pela partida dos espíritos amigos.
Seguindo a tradição os Dani pegaram todos os presentes dados pelos visitantes, colocaram em uma caverna, consagraram com sangue de um porco sacrificado e ordenaram que ninguém tocasse neles.
Já os presentes dos Dani foram diferentes. Eles decretaram outra maga, trégua, para que nenhuma das tribos no caminho fizesse mal ao grupo de Maggie.
Depois de vários dias de viagem eles chegaram ao acampamento-base, quando foram surpreendidos por uma visão incomum: De um avião de transporte caía o que parecia ser um cadáver em um para-quedas, mas era Alexander Cann, um cineasta aventureiro que havia convencido o Comando que sua presença era essencial. Ele também os convenceu que sabia saltar de para-quedas, quando na verdade seu treinamento foi dado pelo soldado no avião de carga e sua coragem veio de uma garrafa. O sujeito pulou completamente bêbado e apagou assim que saiu do avião.
Logo a rotina no Campo Shangri-lá estava estabelecida, nas cargas começaram a trazer conchas, que os nativos usavam como dinheiro, e os soldados compravam batatas e porcos a ponto de inflacionar o preço de mercado.
Enquanto isso os preparativos para usar os planadores Waco CG-4A iam a todo vapor, infelizmente com acidentes causados por equipamento velho e falta de manutenção. houve mais de um quase-acidente durante os testes, muitas dúvidas mas no dia 28 de Junho de 1945 tudo estava pronto.
Um Waco.Três planadores iriam descer no vale, cada um levaria 5 passageiros, por causa da grande altitude. No primeiro iriam os três sobreviventes e mais dois soldados filipinos. Walter se recusou a deixar seus homens para trás. Ele iria no último vôo.
Com ajuda dos nativos o planador foi posicionado e os passageiros embarcaram, mas na decolagem um paraquedas usado para demarcar a pista se prendeu na roda, começou a bater contra o chão de lona e fez um rasgo, McCollom teve que se esgueirar, puxar o pano para dentro e amarrá-lo, enquanto o fundo do planador raspava no topo das árvores, mesmo com o avião-reboque dando tudo que tinha.
Toda ajuda é bem-vinda.46 dias após terem caído em Shangri-lá, o vale tentava pela última vez mantê-los ali, mas o Douglas C-47 era mais forte e Maggie dizia adeus a seus amigos nativos, abraça aos arcos e outros presentes que ganhara.
Medalhas foram distribuídas, Maggie virou uma celebridade e percorreu os EUA vendendo bônus de guerra e contando sua história. Hollywood iria fazer um filme da aventura mas o público estava cansado de filmes de guerra, e a proposta nunca foi adiante. Com o tempo sua fama se dissipou, e depois de um divórcio ela viveu quieta até morrer em 1978, aos 64 anos.
Ken Decker morreu aos 88 anos em 2000, John McCollom morreu em 2001 aos 82 anos. Earl Walter Jr. morreu em 2014, aos 93 anos.
Shangri-lá foi invadida por madeireiras, mineradoras, soldados da Indonésia e principalmente missionários. O modo de vida Dani acabou, não há mais guerras, os outrora orgulhosos guerreiros desfilam com as roupas de seus ancestrais esmolando migalhas de turistas, mas os mais velhos ainda contam para quem quiser ouvir a lenda dos três espíritos que vieram em paz e visitaram a terra deles, muitos anos atrás.
O filme original de Alexander
Cann filmando em Shangri-lá


https://www.youtube.com/watch?v=MynQcWQJ3iIBibliografia: